Cleber Ribeiro Fernandes, teatrólogo arariense de renome nacional



O teatrólogo Cleber Ribeiro Fernandes, filho do Professor José Francisco Chaves Fernandes e de Isabel Nunes Ribeiro Fernandes, nasceu em Arari no dia 20 de março de 1933 e faleceu no Rio de Janeiro em 1º de dezembro de 1991. Segundo Batalha (2011, p. 252), “estudou o primário em Arari. Em São Luís, estudou o Ginásio e estreou como ator e autor de teatro”. Ainda segundo Batalha, em e-mails trocados com ele, “Cleber Ribeiro Fernandes escreveu a sua primeira peça teatral infantil, “As galinhas da Tia Chica”, em Arari”.


De acordo com o professor Edson Amaro, em um breve ensaio sobre a sua obra, Cleber Ribeiro era um “apaixonado pelas letras desde pequeno, quando passava o tempo escrevendo seus primeiros textos, migrou para o Rio de Janeiro na juventude em busca de realizar o sonho de ser escritor. Conseguiu que suas peças fossem várias vezes montadas, mas permaneceu com a segurança financeira de um funcionário do Banco do Brasil”.

Diga-se de passagem que, Cleber Ribeiro foi aprovado em concurso público para trabalhar no banco do Brasil, tomou posse na instituição em 5 de maio de 1954, em São Luís. Em seguida partiu para o Rio de Janeiro. Segundo Batalha (2011), “Visitou Arari, pela última vez, em março de 1958, quando já era famoso no sul do País”.


Sobre as obras teatrais de Cleber Ribeiro, o professor Edson Amaro comentou:

“Em suas peças adultas, sempre há personagens que precisam sair do seu lugar de origem por algum motivo. Os personagens de “Rumor Subterrâneo” saem do interior do Brasil para o Rio de Janeiro, em busca não apenas de ascensão social, mas também de viver mais livremente a sua afetividade.

O contrário se dá em “Viver em Paz”, quando um funcionário público vai para o interior atraído pelas vantagens que o governo federal oferecia a quem se internasse no sertã – mas que paga a ambição com a ruína de seu casamento: a esposa não suporta a vida do interior e se envolve com um dos colegas de trabalho do marido, única pessoa do lugar por quem consegue nutrir alguma simpatia.

Nessas histórias, escritas quando o Brasil se modernizava e Juscelino lançava os alicerces de Brasília, Cleber põe a nu as contradições deste país continental, incapaz de um desenvolvimento equânime e que força os êxodos daqueles que buscam alguma realização. Há, em seus textos, uma geografização do desejo, cujo centro é o Rio de Janeiro, que, apesar dos esforços de JK, continuava concentrando em si os olhares da nação, como se fosse uma Terra prometida – que, diferentemente daquela da Bíblia, proporcionaria a realização de desejos reprimidos.

O tema da homoafetividade aparece em “A Torre de Marfim”, de 1959, montada no Rio de Janeiro, no extinto Teatro Mesbla, pela Companhia Tonia-Celi-Autran. No elenco, Tônia Carrero e Paulo Autran, sob a direção de Adolfo Celi. Logo depois, foi publicada em livro, com as duas outras peças mencionadas, pela Gráfica Editora Nap S. A., com prefácio de Celi. Infelizmente, uma raridade bibliográfica que mereceria voltar às livrarias...

O personagem central da peça é Ricardo, um jovem pintor que saiu de Minas para tentar mostrar sua obra para o Brasil que, naquela época, convergia para o Rio. Na cidade que tinha acabado de perder o título de capital da República, envolve-se com Ângela, uma mulher mais velha, em cujo apartamento passa a morar no bairro de Copacabana.

A vida do casal transcorre tranquilamente, até que Ricardo passa a receber telefonemas de alguém que ele diz ser um irmão que o estaria pressionando a voltar para Minas porque, ainda segundo ele, sua família conservadora não aceitava aquele relacionamento.

No decorrer da peça, Ângela acaba encontrando-se com o autor dos misteriosos telefonemas, e este alega que é Ricardo que insiste em lhe telefonar. Descobre-se, então, que eles mantêm uma relação homoafetiva e que Ricardo tem uma vida dupla".


Além de Edison Amaro, outros eminentes escritores brasileiros falaram sobre a magnitude da obra literária do teatrólogo, arariense, Cleber Ribeiro Fernandes. O renomado escritor e crítico de teatro, Sábato Magaldi, em texto publicado originalmente em 1962, fala dos méritos de Cleber e lamenta que a obra do autor, segundo ele, “marcado, sobretudo, por Ibsen e Chekhov”, sofresse “um ligeiro ostracismo”, pois, naquela época de ebulição política, “a procura sistemática de uma dramaturgia de denúncia dos privilégios e das injustiças apagou um pouco as outras correntes, sobretudo as de fundo psicológico. Qualquer texto com foros de subjetividade é preterido por aqueles que enfrentam as questões sociais, talvez por serem mais apaixonantes na quadra que atravessamos” (MAGALDI, Sábato. Panorama do Teatro Brasileiro. 6ª edição. São Paulo: Global, 2004, pág. 275). “Sim, de fato, a obra de Cleber é intimista, mas nem por isso menos política”, frase do professor Edson Amaro.


Maria Clara Machado, em seu livro “Artistas Brasileiros, publicada pela Universidade de São Paulo - USP, em 1998, na página 75 faz a seguinte citação de um dos textos de Cleber Ribeiro Fernandes sobre o teatro infantil:


“Apesar de todas as aparências em contrário – e, nestas, estou incluindo os concursos de peças e festivais de espetáculos infantis – ninguém pode negar que o teatro infantil em si é tido como gênero menor. Antes que se formule os equívocos de boa ou má-fé, devo dizer que participo conscientemente desta opinião. Sentindo-me à vontade para fazê-lo porque durante algum tempo advoguei o preceito às avessas de que o texto infantil suportaria os critérios desejáveis para a apreciação dos demais gêneros, isto é, de toda e qualquer manifestação teatral destituída de bitola quanto à idade do público”.


Cleber Ribeiro Fernandes foi colunista e crítico de teatro no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 14 de fevereiro de 1959, por exemplo, o JB publicou a crítica teatral “Quando despertamos de entre os mortos”, onde Cleber fala sobre a obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, um dos escritores que influenciou o nosso teatrólogo. No artigo Cleber fala também da importância da formação de atores para o teatro. Fala das dificuldades dos atores de teatro e, enfaticamente, escreveu:

“Na realidade, são poucos os atores que, ao receberem seu “diploma”, estão aptos a desempenharem com justeza a menor ponta que seja num conjunto teatral de boa categoria”.


E complementa:

“Não lhes cabe a culpa disso, nem ao menos podemos dizer que caiba ela aos professores em geral, pois há alguns, nas três escolas reconhecidas do Rio de Janeiro, que em verdade se esforçam para realizarem alguma coisa. Infelizmente, esse esforço é derrotado “a priori” por vários elementos, tais como: instalações inadequadas, “curriculum” mal organizado, falta de apoio no desenvolvimento do ator em formação pela deficiência do ensino, etc.”


Cleber Ribeiro Fernandes é mais um notável arariense que o nosso povo não conhece, infelizmente. Espero que este artigo possa ser válido no sentido de corrigir este lapso em nossa memória. Cleber Ribeiro Fernandes com a sua importante obra teatral, figura entre os grandes artistas brasileiros do teatro como autor e ator. Foi várias vezes premiado. Ganhou notoriedade nacionalmente. Desse modo, em Arari, merecidamente ele deve ser reverenciado. Precisamos dá o mérito a quem, de fato, possui. Ao pesquisar e estudar sobre a obra de Cleber Ribeiro Fernandes, o meu orgulho de ser de Arari ficou ainda mais evidente, ficou maior. Mais um gênio que Arari produziu. Sim, usei o adjetivo gênio. Pois, se para os grandes críticos teatrais do Brasil Cleber foi magnânimo em sua obra, para nós, seus conterrâneos, ele será um gênio. Um gênio do Teatro Brasileiro-Arariense.


REFERÊNCIAS

AMARO, Edson. Cleber Ribeiro e a geografia do desejo. Ensaio publicado na Revista Sex Boys,

BATALHA, João Francisco. Um Passeio Pela História de Arari. 1ª edição. São Luís, Lithograf, 2011, p. 252.

JORNAL DO BRASIL. Quando Despertamos de entre os Mortos. Artigo de Cleber Ribeiro Fernandes, publicado em 14 de fev. 1959.

MACHADO, M. Clara. Artistas Brasileiros. São Paulo, Ed. USP, 1998, p. 75.

MAGALDI, Sábato. Panorama do Teatro Brasileiro. 6ª edição. São Paulo: Global, 2004, pág. 275).


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