Resenha da obra Baixada Maranhense, do geógrafo arariense Silvestre Fernandes


FERNANDES, José Silvestre. Baixada Maranhense. Boletim Geográfico. Ano V. Nº 53. Agosto de 1947.

Eis que em 1° de agosto de 1889, no povoado Rabela, em Arari-MA, nasceu José Silvestre Fernandes. Geógrafo de notável saber. Foi professor catedrático de Geografia no afamado Colégio Pedro II, do Rio de janeiro. Na área da Geografia, Silvestre Fernandes publicou quatro obras, a saber: “Os Sambaquis do Noroeste Maranhense”, “O Assoreamento da Costa Leste Maranhense”, “Os Semi-Deltas do Noroeste Maranhense” e o estudo sobre a “Baixada Maranhense”.

Seus trabalhos foram publicados em dois dos mais importantes periódicos do Brasil, o Boletim Geográfico e a Revista Brasileira de Geografia, ambos pertencentes ao Conselho Nacional de Geografia (CNG), ligados ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nestes veículos de divulgação científica, grandes geógrafos brasileiros e estrangeiros também escreviam. Dentre eles, destacamos: Milton Santos, Pierre Deffontaines, geógrafo francês, que muito contribuiu com o desenvolvimento da Ciência Geográfica no Brasil, inclusive foi ele que fundou a cadeira de Geografia na Universidade de São Paulo, em 1935; Josué de Castro, Raimundo Lopes, Raja Gabaglia, Aroldo de Azevedo, Aziz Ab’sáber, dentre outros renomados geógrafos.


Decerto, ao lado de Raimundo Lopes, outro grande nome da Geografia maranhense e brasileira, Silvestre Fernandes se destacou no cenário geográfico brasileiro. Seu primoroso trabalho “Baixada Maranhense”, que iremos examinar neste breve ensaio, serviu como referência a outros autores que dedicaram-se a estudar a Amazônia, a Pré-Amazônia e o Estado do Maranhão, geograficamente. Por exemplo, na obra “Amazônia: do discurso à práxis”, Aziz Ab’sáber faz várias citações dos trabalhos de Silvestre Fernandes, “Baixada Maranhense” e “Os Semiodeltas do Noroeste do Maranhão”. Do mesmo modo, Roberto Galvão, em trabalho publicado em 1955, na Revista Brasileira de Geografia, intitulado “Introdução ao Conhecimento da Área Maranhense Abrangida pelo Plano de Valorização da Amazônia”, também utiliza “Baixada Maranhense” em várias citações no seu prestimoso texto. Reconhecendo o mérito e o notável saber geográfico de Silvestre Fernandes, o também geógrafo, Raja Gabaglia, grande autoridade da Geografia brasileira, após ler o trabalho “Os Semi-deltas do Noroeste do Maranhão” teceu grandes elogios a Silvestre Fernandes, classificando a obra de: “incomparável, impressionante e dedicada”.


Silvestre Fernandes integrou o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), onde tomou posse no dia 29 de novembro de 1948. Neste Sodalício, assumiu a cadeira patroneada por Antonio Enes de Sousa. Foi membro do Diretório Regional de Geografia no Estado do Maranhão, onde estreou o periódico desta instituição publicando o seu trabalho “Baixada Maranhense”, em 1947. José Silvestre Fernandes faleceu em 1971, no Rio de Janeiro, aos oitenta e dois anos de idade.


Pesquisando na biblioteca eletrônica do IBGE, encontramos o Boletim Geográfico nº 53, ano V, de agosto de 1947, onde também fora publicado o artigo científico “Baixada Maranhense”, do nosso eminente geógrafo José Silvestre Fernandes. Em treze páginas, ele discorre sobre os aspectos geológicos, fisiográficos, topográficos, botânicos e humanos desta singular região do Estado do Maranhão: Baixada Maranhense. Logo, o autor é nativo da região. Conhecia muito bem do assunto. Desta forma, teve capacidades para relatar minuciosamente a região. Passamos, doravante, a examinar este magnífico trabalho. Hoje, na verdade, um documento de suma importância para nós, habitantes nativos da Baixada Maranhense. Diga-se de passagem que, por tratar-se de um trabalho ligado à Geografia Física, ele continua atual nos aspectos físicos, apesar do seu caráter histórico, como mencionei acima.


Na primeira parte do estudo, Silvestre Fernandes enfoca a estrutura geológica do Estado como um todo, dando ênfase, obviamente, à Baixada. “Plataformas continentais de mares permianos, triássicos ou cretáceos, emergindo e tornando a entrar no banho tépido das águas, chocaram milhões de seres caprichosos, representantes da fauna e flora exaltadas de tão remotas eras”. Segundo ele, “os campos da Baixada maranhense estende-se ao sul e sudoeste do Golfão, abrangendo os cursos inferiores do Itapecuru, Mearim, Grajaú, Pindaré, médio Turi-Açu e Pericumã. Nessa região, “constituem ampla concha que, progressivamente, se reduz. No texto, Fernandes relata sobre a variedade de fósseis encontrados em Alcântara, na Ilha de Livramento, Porto Franco, Carolina, Balsas, Brejo, Codó e na Ilha de São Luís. Para embasar seus argumentos geológicos, ele cita inúmeras vezes o Prof. Llewllyn Ivor Price, grande paleontólogo gaúcho. Ivor Price é considerado como o “Pai da Paleontologia no Brasil”.


De acordo com o nosso autor, um vasto lago se formara nas terras baixadeiras como a proteger as terras altas da chapada. Isso teria ocorrido devido a influências da Cordilheira do Andes. “A cordilheira andina, famoso geossinclinal entulnado de sedimentação abissal, vinha lutando para ganhar equilíbrio. Agita-se, estremece, para, afinal, produzir alterações profundas nas terras da antiga Gonduana”. Durante todo este ínterim, de acordo com Fernandes, “neste tempo, o Mearim, Grajaú e Pindaré eram miseráveis ribeiros que ensaiavam os primeiros passos, abrindo tipicamente seus leitos em terras já abandonadas por aquelas agitadas águas”. O autor refere-se às águas que se agitavam com os “mergulhos” que a Cordilheira dos Andes dava no Pacífico.


Para explicar a formação do boqueirão que originou a Baía de São Marcos assim como a Baía de São José e o estuário do Mearim, nosso geógrafo escreveu: “A água do lago e as fortes correntes oceânicas do Atlântico, como dois potentes aríetes, por outro lado continuaram a bater sem esmorecimento as terras que as separavam”. E continua: “E tanto o fizeram que, certa vez, entre as barreiras do Icatu e o costão de Alcântara, a muralha cedeu e a massa líquida de água doce se confraternizou com o oceano. Assim deve ter começado o boqueirão, que hoje, mui alargado, põe em comunicação a baía de São Marcos com o estuário propriamente dito do Mearim. E do mesmo modo aconteceu com a Baía de São José”.


Após a ruptura colossal, as águas desceram de nível. “O Mearim e seus companheiros de jornada experimentaram melhores oportunidades. A terra fresca convidava-os a passeios mais largos. Aceitando o convite, rasgam-lhe o ventre ainda virgem e abrem suas calhas que divagam a formar meandros”. Os companheiros de jornada do Mearim seria, o Grajaú, o Pindaré, o Turiaçu e o Pericumã, sobretudo.


Citando Raimundo Lopes, notável geógrafo maranhense, Fernandes destaca que “é, sem dúvida, em torno do Golfo que mais se estende a Baixada maranhense, formando os vastos campos aluviais, salpintados de lagos em rosários”.


Na época em que o trabalho foi escrito, segunda metade da década de 1940, a Baixada maranhense era composta pelo seguintes municípios, conforme nos diz Silvestre Fernandes: Pinheiro, São Bento, Peri-Mirim, Cajapió, São Vicente de Férrer, Viana, Penalva, Monção, Pindaré-Mirim, Baixo Mearim, Arari, Anajatuba, Rosário, Itapecuru, Vargem Grande, Icatu e Santa Helena.


Nosso autor faz algumas indagações pertinentes sobre os critérios de regionalização da Baixada. Segundo ele, se levassem em conta os critérios fisiográficos a região teria uma outra divisão. Assim, ele diz: “Se Santa Helena faz parte da Baixada, com os seus campos chamados de chapadas e largos trechos de terras inundadas do alto Turi, como separar os municípios de Arari, Baixo Mearim, Monção e Pindaré-Mirim, que se integram nas extensas zonas dos campos baixos, tesos e matas de ourela, formada de babaçuais”? Para Fernandes, Santa Helena “estaria melhor classificada na zona do Noroeste, a verdadeira hiléia maranhense”. Bem, sabe-se que atualmente há uma outra subdivisão da Baixada Maranhense. Todavia, ainda existem distorções, obviamente. Até porque não há como se ter homogeneidade. Cada lugar acaba por possuir as suas peculiaridades.


Silvestre Fernandes fala da diversidade lagunar da Baixada. Cita os lagos mais expoentes. Assim, claro, não deixa de citar os nossos lagos ararienses. Diz: “em Arari e Anajatuba, ficam os lagos Morte, cujo sangradouro é o Igarapé Nema; Laguinho, Muquila; Jaburu, Açutinga e outros”. Fernandes não deixa de relatar a prática de tapagem em lagos e igarapés, que, ainda hoje, é recorrente. Fala da variedade da vegetação lacustre: mururu (Pontederia cordata), arroz bravo, andrequicé, canaranas, pariobas, aningas, algodão bravo, mata-pasto; “a vegetação limnófila é abundantíssima”.


Sobre os aterrados, um tipo de sedimentação pantanosa, comum na Baixada, escreveu: “Em certas enseadas, tais formações se desenvolvem e, muitas vezes, preparam temerosas armadilhas aos animais pesados. Quando se consolidam passam à categoria de aterrados que promovem o progressivo levantamento daquelas conchas”. E complementa: “Debaixo dessa trama formada pela vegetação lacustre, fica sempre um lôdo de consistência vária, onde se alojam jejus, traíras, tamboatás (Callichthys callichthys), que é o nosso conhecido tamatá; o muçum (Lepidosirem paradoxos), o puraquê, que é o peixe elétrico (Electrophorus electricus) e caricídios diversos. A cangapara de longo pescoço (Hydraspis hilarii), a campinima de cabeça tarjada de riscas vermelhas e muçuãs estão ali no seu elemento predileto”.


A fauna lacustre idêntica em toda a região é numerosa. Dominam em geral os peixes de opérculos, os “ctnobrânquios abdominais”. Além dos peixes, há quelônios, sucuris e jacarés. “Do fundo das enseadas, surgem capivaras e lontras”. “Grande quantidade de aves ribeirinhas e lacustres: patos, marrecas, arapapás, maguaris, meuás, taquiris, mergulhões, socós, garças brancas e morenas, jaburus, jaçanãs (Parra jaçanã), japeçocas, carões”.


Nas últimas páginas de Baixada Maranhense, José Silvestre Fernandes faz um estudo do quadro humano da região em muitos dos seus aspectos. Assim, ele verifica “que o homem vive do mesmo modo às margens do lago Açu ou nos campos baixos de Pericumã; nos tesos do Arari, nas chapadas de Pinheiro ou nos campos enxutos de Cajapió”. O homem baixadeiro extrai carnaúba no estuário do Mearim; na mancha dos cocais, quebra babaçu; lavra a terra e faz a farinha seca ou d’água, colhe arroz, milho, algodão, fava, feijão, aproveitando para isso os intervalos da pesca ou pastoreio.


Como a pesca é uma atividade imanente ao homem da Baixada, Silvestre Fernandes enfoca esta atividade com muita argúcia. Cita os diversos processos que o homem utiliza na captura dos peixes na região: tapagem, choque ou socó, munzuá, anzol, tarrafa, rede, mitra, pescaria de mão. Como a pescaria de tapagem é comum praticamente em toda a região da Baixada maranhense, Fernandes se atém sobre este tipo de pesca. A seguir transcreveremos na íntegra o que ele escreveu a cerca deste tipo endêmico de pesca:

“A pesca de tapagem é interessante e muito farta. Nos igarapés que funcionam como sangradouros, em certa altura de seu curso, levanta-se uma cerca com talos de pindoba ou varas comuns, estendidas de uma a outra margem. Junto a essa tapagem, à montante, fincam-se dois jiraus, que são os pesqueiros do “canto”, como, vulgarmente, lhes chamam os pescadores. Os peixes, que sentem as águas do campo diminuírem, procuram os igarapés com o objetivo de ganharem os rios principais. Reúnem-se em cardumes numerosos. Retidos afinal pela armadilha que previamente foi preparada, são pescados com facilidade. Em geral, essas tapagens são públicas e muitos pescadores se servem delas. O primeiro a chegar toma lugar no “canto” e tem primazia na pesca. No leito do igarapé, costumam deixar cair uma pindoba aberta, para em contraste com o lôdo escuro, melhor serem destacados os cardumes. O “canteiro”, pescador que se coloca no jirau já referido, assim que percebe a afluência do peixe junto ao cercado assobia, dando o sinal convencionado. Lança, presto, sua tarrafa e os outros o acompanham. Por esse modo, apanha-se todo o peixe por acaso ali existente. Depois de duas ou três tarrafadas, voltam à calma. Ninguém conversa para não espantar o peixe. Em posição atenta, aguardam-se novas oportunidades. É notável a quantidade de pescado nesse período do ano (maio a junho) em quase todos os igarapés da zona. Tal gênero de pescaria é mais abundante à noite. Há ocasiões em que somente chegam à tapagem curimatás. Em outras já se pegam bagrinhos, também chamados capadinhos ou anojados (Pygidium brasileiense); acarás, piaus, mandis dourados e saborosos, etc. Não raro, porém, o peixe falha um ou dois dias atemorizado pela intensa perseguição dos pescadores”

Após elucidar formidavelmente sobre a pescaria na Baixada, nosso eminente geógrafo passa a enfocar a caça na zona. Fala sobre as formas que o homem da região utiliza para capturar aves e quelônios, sobretudo. Daí, enfoca com maestria a vida na região. Os tipos de habitação. “A habitação do homem na Baixada é típica e não sofre alteração de um lugar para outro”. Silvestre relata a vida dos vaqueiros. Sua lida no campo, nos retiros. Morando em casa-jiraus. Fala das constantes mudanças do gados para lugres diferentes nas épocas de cheias e de seca. Em um dos trechos diz: “A criação dos campos de Arari, que inverna nos tesos locais, transfere-se no verão para os campos de Arari-Açu, Longá e margens do Grajaú na zona dos lagos Verde, Itãs, Novo, Açu, etc”. Fala do flagelo da febre aftosa e dos prejuízos causados aos pecuaristas. Agora imagine, caro leitor, hoje, com a vacinação ainda há a assombração da aftosa, imagine nos tempos da década de 1940.


Como professor que era, Silvestre Fernandes não esqueceu de frisar a importância da educação, principalmente a educação rural. Pois, o homem da Baixada desperdiçava, àquela época, o leite que produzia. Ele relata sobre a pouca higiene empregada no processo de ordenha, na fabricação de queijo, manteiga de garrafa e coalhada. Desse modo, diz: “Em verdade, é um problema que tem sido relegado a um plano inferior, o da educação rural de nossa gente. Não há escolas que eduquem. Temos escolas de simples alfabetização, sem finalidade outra que possa orientar, no sentido utilitário, as nossas populações rurais. Precisamos, para consertar essas cousas e melhor norteá-las, de assistência técnico-pedagógica e sistema educacional adequado.

José Silvestre Fernandes encerra o seu trabalho apresentando um quadro com dados sobre a população e a extensão territorial dos municípios que, segundo ele, poderiam ser incluídos na Baixada Maranhense. No referido quadro, Arari apresentava, à época, uma população de 12.265 habitantes e uma superfície de 316 quilômetros quadrados.


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