ARIMATÉA CISNE, vida e obra




Sempre tive curiosidade em saber quem foi Arimatéa Cisne. Estudei, em 1987, o 1º ano A, em Arari, numa escola que leva o seu nome. Nesse tempo, o educandário era conhecido por Grupo Escolar Arimatéa Cisne. Em Bacabal, também existe uma escola com o nome de Arimatéa Cisne. Na capital, São Luís, há além de uma escola, uma rua com o nome dele. Daí, se ele foi digno de todas estas homenagens, é porque trata-se de alguém importante. E, de fato, Arimatéa Cisne foi um homem importante. Após vários meses de pesquisa, ratificamos a eminência deste notável cearense que adotou o Maranhão como sua segunda terra. Vamos conhecê-lo a partir de agora.


José de Arimatéa Cisne nasceu no distrito cearense de Licânia, a 17 de junho de 1880 e faleceu em São Luís do Maranhão, a 31 de dezembro de 1941. Filho do tenente coronel Joaquim Guilhermino Maria da Costa Cisne e de Maria da Penha Cisne. Iniciou a vida como caixeiro, entrando, depois, para o Seminário Episcopal de Fortaleza, pelo qual se ordenou, a 28 de março de 1903, dedicando-se ao Magistério e ao Jornalismo. Professor de Grego no Liceu Cearense, nomeado por título de 27 de julho de 1912. Apostatou-se publicamente, a 18 de outubro de 1914. Para divulgar a sua decisão, publicou uma Declaração na Folha do Povo de Licânia, na edição de 31 de outubro do referido ano.


Durante a vigência da República Velha, Arimatéa Cisne assumiu o cargo de deputado republicano entre os anos de 1913 e 1914. Após esse curto período na política, mudou-se para o Maranhão, aqui se tornou, ao que consta na publicação Os clérigos católicos na Assembleia Provincial do Ceará de 1834 a 1880 - MEMORIAL DEPUTADO PONTES NETO, pastor protestante, adotando, assim, a religião que tanto combateu, quando seminarista, em polêmica com o pastor Jerônimo Gueiros. Era um orador notável e hábil com a palavra escrita.

Após chegar ao Maranhão, especificamente em São Luís, onde morava na rua Jansen Matos, número 145, antigo Savedra, dedicou-se ao Magistério. Em 1916, foi nomeado professor do Liceu Maranhense, onde assumiu a cátedra de Português, Latim, Francês e Matemática. Em junho de 1918, matriculou-se na Faculdade de Direito do Maranhão. Formou-se em 1923, todavia, continuou exercendo, com maestria, o Magistério. Em 1920, Arimatéa Cisne assumiu a direção da egrégia Escola Normal do Maranhão. Ele era muito requisitado para ministrar palestras, cursos e conferências. Segundo consta no jornal Pacotilha, na edição de 8 de setembro de 1934, “o doutor Arimatéa Cisne ministrou uma importante conferência no Teatro Arhur Azevedo sobre a Independência do Brasil”, isso no dia 7 de setembro do ano supracitado.


Neste ínterim, fundou o Colégio Cisne, um respeitado e renomado internato, que localizava-se à rua 13 de maio, número 92, segundo escreveu o eminente jornalista Newton Neves no Jornal O Combate, edição de 11 de novembro de 1952. No Colégio Cisne, além do nosso biografado, também lecionava o grande escritor chapadinhense, Mata Roma, que era seu amigo particular. Arimatéa Cisne era muito respeitado e amado por seus alunos. O ilustrado jornalista itapecuruense, Zuzu Nahuz, que foi aluno do Internato de Arimatéa Cisne, escreveu em sua coluna Rosa do Ventos, no Jornal O Combate, em 1955, que “o professor Arimatéa Cisne foi uma das maiores glórias do magistério maranhense. Profundo conhecedor do Direito e da Língua Portuguesa. Foi o meu grande mestre” (sic).


Na coluna acima citada, Zuzu Nahuz conta um fato pitoresco ocorrido em uma aula do Professor Arimatéa, no Colégio Cisne:


“Certa vez, numa aula de História do Brasil, o Professor Cisne perguntou ao seu filho Voltaire onde havia nascido o imperador Dom Pedro I. E Voltaire, sem vacilar, disse que tinha sido no Brasil. Professor Arimatéa interpelou-o desejando saber quais os estados serviram de berço à sua Majestade. Voltaire disse que era o Maranhão, e adiantou que Dom Pedro I nascera em Caxias. O professor Cisne, com as veias pulando no pescoço e os olhos arregalados, de raiva, exclamou: “Voltaire, meu filho, você não lasca nada e só serve para puxar carroça e bater pandeiro”.


Na mesma matéria Zuzu Nahuz diz que Voltaire era um aluno desinteressado, malandro e de inteligência curta.


O benemérito professor José de Arimatéa Cisne era casado com a senhora Yaiá Almeida Cisne. Com ela teve um casal de filhos: Voltaire Cisne, de quem falamos na narrativa pitoresca acima, e Voltairina Cisne. Na primeira metade do século 20, muitos cearenses vinham morar em São Luís. Então, a fim de acolher os seus conterrâneos na capital maranhense, Arimatéa Cisne fundou a Associação dos Cearenses Residentes em São Luís. Através desta entidade, recepcionava e ajudava a todos os cearenses que chegavam. Anualmente, a colônia cearense fazia uma grande festa de confraternização.


Mesmo sem concorrer a cargos eletivos, Arimatéa era bastante envolvido com a política maranhense. Citando um exemplo da sua participação política, em junho de 1931, apoiou um movimento político em prol do Interventor Federal Padre Astolfo Serra. Fazia discursos acalorados e extremamente eloquentes, e, assim, obviamente, era bastante aplaudido.


Ele era apaixonado pela cultura. Incentivava, produzia e patrocinava concertos musicais, show de talentos e peças teatrais no teatro Arthur Azevedo. Era figura sempre presente na vida acadêmica e cultural da cidade. Era um homem extremamente prestigiado. Durante o seu aniversário de 40 anos, recebeu uma grande homenagem da direção, professores e alunos do Liceu Maranhense, em 17 de junho de 1920.


Arimatéa Cisne era muito companheiro e justo. Certa vez, segundo consta no Jornal O Combate, disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca nacional, fez uma grande mobilização no Liceu Maranhense a favor dos direitos do professor Abranches de Moura. O Professor Abranches lecionava há mais de uma década no Liceu. O diretor do referenciado educandário, à época, o professor Jerônimo Viveiros, solicitou ao governador do Estado a sua demissão, argumentando que Moura deveria prestar concurso público para ter o direito de lecionar. Após a grandiosa manifestação, o governador indeferiu o pedido da Direção do Liceu e nomeou o professor Abranches de Moura, efetivando-o no cargo. Ao que tudo indica, a questão se deu por motivos políticos, algo ainda comum nos dias de hoje.


Bem, mas por que colocaram o nome de Arimatéa Cisne em uma escola estadual em Arari? O motivo é simples. Em 1932, o então secundarista arariense, Milton Ericeira, foi aprovado no exame de admissão do Liceu Maranhense, onde se formou. Certamente, foi aluno e amigo do professor Cisne (como Arimatéa Cisne era conhecido no Liceu Maranhense). Quando foi em 17 de abril de 1948, dia da assinatura do Decreto nº 542, que criou o Grupo Escolar Arimatéa Cisne, em Arari, o Dr. Milton Ericeira era correligionário do então governador, Sebastião Archer. Desse modo, o já influente político arariense sugerira o nome de Arimatéa Cisne para o Grupo Escolar, ora criado em nosso município.


Decerto, foi uma justa homenagem. José de Arimatéa Cisne contribuiu muito com a Educação do Maranhão. O Colégio Cisne, por ele fundado, era afamado e de renome. Assim como muitos afirmaram, Arimatéa Cisne foi um grande vulto histórico do Magistério maranhense. Era um respeitado professor, conferencista, palestrante, orador de méritos e extremamente culto. Todos nós, alunos, ex-alunos, ararienses em geral, orgulhamo-nos de ter, em nossa cidade, uma escola estadual que leva o nome desse notável homem cearense-maranhense.

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