IGARAPÉ DO NEMA, nosso pequeno colosso e a ingratidão antrópica


Segundo o filólogo Silveira Bueno, em seu Dicionário de Tupi e Guarani, a terminologia "Nema" significa "1. que exala grande fedor; 2. fétido". Talvez, por hipótese nossa, os índios teriam dado este nome ao igarapé, outrora, devido ao mau cheiro que exala das águas, sobretudo quando da transição do período seco para o período chuvoso. É bem verdade que quando os campos começam a encher, as águas “apodrecem” e mudam de cor devido à matéria orgânica morta (resto de vegetação, por exemplo). O Igarapé do Nema, todavia, continua sendo o grande provedor de alimento aos ribeirinhos e à população de Arari como um todo. Mesmo fatigado e combalido, ele se desdobra para alimentar o povo arariense. A ingratidão ignominiosa do povo que necessita desse suntuoso pequeno-colosso, que só nos faz o bem e prover o sustento, é sórdida. Com um pouquinho de sensibilidade podemos observar que o Nema não precisa do homem, mas o homem necessita, logo, depende dele para sobreviver. No entanto, mesmo sabendo disso, o homem não cuida, não protege, e, nem sequer, contempla a sua beleza natural.


Geograficamente, pouco se sabe sobre o Igarapé do Nema no tocante à extensão do seu curso e local onde nasce. Durante uma conversa com o professor universitário, médico e membro da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências – ALAC – Dr. Antonio Rafael da Sillva – ele me disse certa vez que: “o Igarapé do Nema nasce próximo ao município de Miranda do Norte”, e que ele (Rafael Silva) teria constatado isso in loco.


Contudo, em entrevista informal com antigos moradores de Arari e pescadores do Nema, nenhum dos entrevistados confirmou tal informação. Cientificamente, não podemos corroborar, ainda, com o que disse o meu interlocutor acerca do verdadeiro local da nascente do Nema. O nobre acadêmico não fez nenhum registro que comprovasse a sua afirmação. Ratifico, falta-nos fontes confiáveis para afirmamos o verdadeiro local da nascente do nome. Local existe, falta descobrirmos. Falta pesquisa sobre a dinâmica espaço-temporal do igarapé, batimetria e medições de sua extensão, vazão média nos períodos de cheia e de estiagem, além da qualidade das águas nos dois períodos.


Do mais, sabe-se, em suma, que o Nema corta toda a planície inundável que forma o lendário Lago da “Morte”, passando pelo centro da cidade de Arari, dividindo-a, desse modo, em duas partes; e desagua no Rio Mearim, onde há uma ponte que atravessa o Igarapé, unindo a parte mais “alta” da cidade com a parte “baixa”.


O Igarapé do Nema no passado foi um dos igarapés mais piscosos de Arari. Facilmente poderiam ser pescados peixes pretos (traíras - Hoplias malacaricus; jejus - Hoplerythrinus unitaeniatus); e carambanjas - Heros severus); curimatás (Prochilodus sp.); durante a piracema, após ser construída a tapagem; aracus (Schizodon vittatus), capadinhos (Trachelyopterus galeatus); jandiás (Rhandia quelen); piaba (Astyanax bimaculatus); piranha (Pygocentrus nattereri), etc. Uma grande fartura de peixes, flora nativa e fauna exuberantes o rodeavam. Hoje o Nema está praticamente assoreado, sua vazão não supera os 0,86 m3/s, uma vazão baixíssima para a grandeza de um igarapé com a sua magnitude. A mata ciliar está bastante desmatada; e sofre constantes agressões antrópicas, sobretudo devido às atividades agropastoris realizada às suas margens. A quantidade de peixes, hodiernamente, é ínfima. Os exemplares pescados são pequenos, e a quantidade mingua ano a ano. Somam-se a este cenário a falta de sensibilidade ambiental dos pescadores, o crescimento desordenado da cidade, que avançou descomunalmente sobre o igarapé e a falta de saneamento.


Na parte que corta a sede do município observa-se um panorama de poluição intensa. O crescimento demográfico, com a consequente criação de bairros às margens do Nema, é uma ameaça visível ao futuro do igarapé. Um enorme esgoto urbano tem seus dejetos e efluentes lançados diretamente em seu leito, causando sua morte dia após dia. Outra questão lamentável e preocupante é o descaso da população marginal com o Igarapé. Pode-se ver diariamente pessoas jogando os mais diversos tipos de lixo (embalagens plásticas, animais mortos, vísceras e ossos de gado, etc.) nas águas do Nema. Além de tudo isso, há inúmeras moradias que o margeiam que não possuem fossas sépticas e, portanto, as fezes humanas são lançadas diretamente no leito do igarapé. Há inúmeras latrinas à beira do mesmo. A ação antrópica insana, da prática desenfreada da agricultura e da pecuária nas margens, que levam consequentemente a impactos ambientais desastrosos é o que mais agride o nosso velho Nema. A construção de duas barragens no Igarapé: uma construída no final da década de 1980 e outra no final da década de 1990, contribuíram para o seu assoreamento, à medida que não atingiram o seu desígnio. Enormes bancos de sedimentos acumularam-se nas margens e no leito. Ele está muito mais raso e estreito.


Certamente, depois do Rio Mearim, o Igarapé do Nema é o nosso maior patrimônio. Hoje ele é também a ratificação do descaso dos ararienses com a natureza que nos cerca e que nos mantém vivos. Mesmo sucumbindo dia após dia, ele continua a alimentar várias famílias de Arari com peixes pequenos, que não têm chance de crescerem, porque não há condições ambientais salutares para isso. O período chuvoso não é suficiente para aumentar o volume de água e a vazão. Por que há tanto desprezo com aquilo que nos faz bem, que nos dá a vida? Não podemos nos esquecer que tudo que necessitamos para vivermos retiramos da natureza. É o nosso pequeno colosso. O Nema é imprescindível aos ararienses.

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