LAGO DA MORTE: história e limnografia




O lago da Morte desperta o interesse de muita gente pela sua exuberância natural, seja no período chuvoso, quando ele fica caudaloso e se interliga com outros lagos da região como o Laguinho e o Açutinga; seja no período seco, quando a planície fica verdejante e favorece lazer e diversão aos ararienses e visitantes. O lago despertou também o interesse de alguns estudiosos dos aspectos geo-históricos de Arari. Dentre estes, destacamos: César Augusto Marques, Silvestre Fernandes, José Fernandes, José Soares e eu, Adenildo Bezerra. Tenho dois artigos publicados no meu blog ARARIZANDO sobre o Lago da Morte. No meu livro “Arari: espaço e sociedade”, publicado em 2014, nas páginas 30 e 31, fiz algumas considerações acerca desse lendário e magnífico “lago”. As aspas no nome lago é para enfatizar que se trata de uma planície que fica coberta de água durante as cheias, de janeiro a junho, e seca totalmente durante o período seco, de julho de dezembro.


Neste artigo, elencarei citações acerca do Lago da Morte feitas por importantes historiadores, geógrafos e estudiosos dos aspectos históricos e geográficos de Arari. Iniciaremos citando César Augusto Marques, historiador respeitado, que fez alguns destaques sobre o lago em seu secular “Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão”. César Marques esteve em Arari por duas vezes, no século XIX, fazendo levantamento sobre o lugar para compor a sua prestimosa obra.


Vejamos o que MARQUES (1970) diz sobre o lago da Morte:


“Distante da povoação meia légua está o Lago da Morte, que é muito piscoso, tendo no verão meia légua de circunferência, e no inverno quatro léguas, por ser rodeado de campos baixos, que se inundam com a chuva. Comunica-se este com o igarapé Nema, que passa dentro da povoação, e sobre o qual existe uma ponte de pau muito arruinada e com muitas tábuas soltas. Para que o lago se não esgote, tapa-se no verão o igarapé, que deságua no rio Mearim. No inverno, também se comunica este lago com o igarapé Arari que nasce em campos baixos ao lado dele. Em distância de duas léguas, encontra-se o Laguinho, mais pequeno (sic) do que o antecedente, bem piscoso e constante, pois nunca se esgota. Arredado quatro léguas, acha-se o Açutinga, maior que o Laguinho e igual ao da Morte; dá muito peixe, porém, cercado de atoleiros, só é aproveitado quando o verão se apresenta com muito rigor” (MARQUES, 1970, p. 89).


César Augusto Marques imortalizou o Lago da Morte na sua maravilhosa obra. Fala dos elementos pertinentes ao lago. Destaca a tapagem, que, outrora, era muito usada pelos pescadores locais para a captura de peixes. Atualmente, essa prática é proibida por lei, uma vez que era predatória e causava impactos ao igarapé e prejudicava a fauna ictiológica do lago e do Nema, sobretudo. Quando Marques cita os “atoleiros” do lago Açutinga, ele se refere aos aterrados que circundam o mesmo, que servem de proteção para o ecossistema do grande lago. Os aterrados são um tipo de ecossistema peculiar em nossa região. São compostos por uma densa camada de substratos que sustenta as matas de aterrados, que são resultados, dessa forma, de um acentuado acúmulo de matéria orgânica. De acordo com PINHEIRO et al (2010) os aterrados são cruciais para manutenção do nível de água nos lagos regionais, por funcionarem como verdadeiras barreiras vegetais ao escoamento da água, mantendo constante o nível de água desses lagos. Os aterrados constituem também áreas importantes para a reprodução dos peixes, além de locais de alimentação e abrigo (PINHEIRO et al, 2010).


O geógrafo Arariense, José Raimundo Soares, reporta-se ao Lago da Morte apresentando-nos a trágica história que dera origem ao nome do lago. Em seu livro “Ressonância de Ecos”, nas páginas 82 e 83, Soares traz a narrativa “A catástrofe do lago da Morte (tragédia e humor)”.


SOARES destaca:


“Entre outras coisas ocorridas em Arari, comenta-se o triste episódio do “Lago da Morte”, cujo nome talvez se tenha originado dessa ocorrência. O drama teve como palco o referido lago. Manoel Baiano e João Graúna foram os escolhidos para a pescaria, naquela fatídica noite, onde ambos fizeram e assistiram ao infeliz drama. Os dois chegaram ao lago altas horas da noite. E em meio à vastidão, preparavam-se para pescaria. Como se podia supor, o silencio, naquele local e hora, era apavorante, nada vinha quebrar a monotonia lúgubre do ambiente. Talvez tomado pelo efeito da solidão, o João Graúna sentiu desejo de dar um grito; um grito que sacudisse céus, terras e águas; que despertasse a Natureza para recuperar aquela situação de pavor, causada pelo atro da noite, quando àquela hora, nem um pio “agoreiro” de uma ave noturna se fazia ouvir. Apesar da discrepância de seu companheiro de pescaria, o grito saiu da garganta com toda força de seu peito, ressoando dentro da noite, cuja voz mais se assemelhava ao relincho de um poltro a procura de sua mãe. Para sua surpresa e de seu companheiro, a resposta lhe veio em poucos segundos, porém, de forma agressiva e provocante, ferindo-lhe a sensibilidade da origem. Soando como um eco, o som de outra voz à distância, se fez ouvir: - “Tá vendo tua mãe, filho duma égua, pra tá rinchando a uma hora desse?”... Na verdade, essas poucas palavras bastaram para quebrar o silêncio e a monotonia do momento e chegar ao desfecho do horrendo drama. Pois logo foi lançado um desafio com palavras insultuosas, reciprocamente, fazendo-se rumar, a uma a outra, as desconhecidas canoas. Ao defrontarem-se, os insultos foram substituídos por varadas, que impiedosamente e brutal eram arremessadas por um e por outro contendores. Por mais agilidade, ou mesmo brutalidade, o João Graúna acertou em cheio no seu adversário, que logo tombou sem vida, pondo fim ao lamentável encontro” (SOARES, S/D, p. 82-83).


Segundo o autor, essa história fora contada a ele pelo senhor José Fernandes (Zé Peteca), em sua residência, no dia 29 de outubro de 1983. Essa trágica história é, para muitos ararienses, a origem do nome “Morte” para o exuberante lago. Como afirma Soares no início do conto, talvez tenha originado desse tétrico episódio.


Outro estudioso arariense que se reportara ao lago foi o conceituado geógrafo, Silvestre Fernandes, em seu trabalho “Baixada Maranhense”. Ele diz: “O regime limnográfico da Baixada Maranhense apresenta-se sobremaneira interessante. No inverno, tomam a forma de um imenso lençol de água doce. São os chamados lagos em rosário. Em Arari e Anajatuba, ficam os lagos da Morte, cujo sangradouro é o igarapé Nema; Laguinho, Muquila, Jaburu, Açutinga e outros”. (FERNANDES, Boletim Geográfico, 1947, p. 550).


FERNANDES (1947) refere-se ao regime limnográfico, sobre o comportamento das águas doces da Baixada Maranhense em época das cheias, que vão de dezembro a junho. Limnografia, portanto, é a ciência que estuda os ambientes lacustres, pântanos e demais estruturas hidráulicas internas dos continentes, bem como processos relacionados também com a paisagem, quer de origem natural ou de consequência antrópica. A expressão “lagos em rosário” refere-se à junção dos lagos e igarapés que constituem a região. No inverno, esses ecossistemas aquáticos se unem, formando um grande lençol hídrico.


Em seu livro “O Rio”, José Fernandes reporta-se ao Lago da Morte, enaltecendo as suas belezas e trazendo, resumidamente, a história da briga entre João Graúna e Manoel Baiano, já recontada acima neste trabalho. José Fernandes praticamente ratifica em seu texto a história narrada por José Soares em Ressonância de ecos. O escritor faz, ainda, um pertinente apelo em prol da conservação ambiental do Lago da Morte.


No livro “Arari: espaço e sociedade”, de minha autoria, lançado em 2014, na p. 31, fiz uma citação de um relatório da Hidraele Serviços e Projetos Ltda, de 1996.


O relatório de impactos ambientais (1996) diz:


“Na verdade, o Lago da Morte é uma depressão existente numa área de campo da Baixada, com o escoamento das águas de inundação desses campos. Se constitui numa pequena bacia que retém essas águas por um período mais longo, e que na medida em que seu nível se reduz as suas águas vão se tornando imprestáveis devido ao aumento da salinidade. Este fenômeno tem causado anualmente grandes prejuízos aos moradores da região. Durante o verão, a área de influência do lago se transforma em campos áridos com vegetação rasteira onde o gado é solto para se alimentar e, durante o inverno esses campos são inundados, e nesse período acontece o fenômeno da piracema, onde grande variedade de peixes sobre o igarapé para desovar nas reentrâncias existentes” (Hidraele, 1996, p. 31).


O Lago da Morte é de suma importância para Arari, sem dúvidas. Trata-se de um dos grandes patrimônios naturais da região. É um grande berçário de aves e é vital para a piracema, no período das cheias. Pode-se afirma que o Lago da Morte não é exatamente um lago, uma vez que se trata de uma planície abaixo do nível do mar (depressão) que se comporta de acordo com o regime de cada período, ou seja, seca totalmente do período seco e fica inundada no período chuvoso. Recentemente, o governo do Estado do Maranhão, através da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA), mandou escavar uma grande vala, chamada de dique, a fim de conter a água durante o verão e estimular, assim, o aumento do pescado.


A grande planície é composta por vegetação arbustiva como a popoca (Coccoloba ovata Benth) e forrada por um belo tapete verdejante formado por capim-de-marreca (Paratheria prostrata). Ao redor da planície encontramos tipos vegetais como o criviri (Mouriri guianensis) e mata-pasto (Senna alata), além do algodão-brabo (Ipomoea fistulosa), e outras espécies vegetacionais.






REFERÊNCIAS


BEZERRA, Adenildo. Arari: espaço e sociedade. Instituto Perone, 2014, p. 31.


HIDRAELE SERVIÇOS E PROJETOS LTDA. Relatório de Impactos Ambientais, 1996.


FERNANDES, Silvestre. Baixada Maranhense. Boletim Geográfico (IBGE), 1947, p. 550.


MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão. 3ª edição. Rio de Janeiro: Fon-Fon e Seleta, 1970, p. 89.


PINHEIRO, Claudio Urbano et al. Plantas úteis do Maranhão – região da Baixada Maranhense. São Luís, Ed. Aquarela, 2010, p. 17.


SOARES, José. Ressonância de ecos. Arari, s.d., p. 82-83.

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