Casa de taipa: saber-fazer, conceitos e preconceitos



Segundo IMBROISI (2018), quando os europeus chegaram aqui, na terra que hoje chamamos de Brasil, ficaram muito tempo realizando apenas expedições de reconhecimento e “tomando conta” da terra que tinham encontrando principalmente pela madeira aqui existente, o pau-brasil.


A primeira manifestação da arte que os europeus fizeram já nas nossas terras foi a Arquitetura: fortalezas e construções religiosas. Com a divisão da terra em Capitanias, surge a necessidade de construir moradias para os colonizadores que aqui chegavam e engenhos para a fabricação do açúcar. A arquitetura era bastante simples, com estruturas retangulares e cobertas de palha sustentada por estruturas de madeira inclinada. Essas construções foram chamadas de “Tejupares”, palavra em tupi guarani com o significado tejy = gente e upad = lugar. Pela falta de mão de obra, a técnica escolhida foi a taipa (IMBROISI, 2018).


Essa técnica foi ensinada pelos operários de construção que vieram de Portugal e pelos padres religiosos que foram importantes na orientação dessas edificações. Até hoje a técnica de taipa é utilizada em vilarejos, cidades do interior e de pequenos lavradores e pescadores. Com essa evolução começam a aparecer as capelas, os centros das vilas, dirigidas por missionários jesuítas. Nas capelas há crucifixo, a imagem de Nossa Senhora e a de algum santo, trazidos de Portugal. Floresciam as igrejas em todos os lugares onde chegavam os colonizadores, especialmente no litoral.


Mas, conta a história, que essa técnica já tenha sido empregada desde tempos imemoriais no Oriente, sendo do conhecimento do Império Romano. No Norte da África, a técnica da taipa de pilão (um dos tipos conhecidos de edificações de taipa) é utilizada muito tempo antes dos portugueses chegarem por aqui. Incombustível e isolante térmico por natureza, a taipa foi empregada na arquitetura de fortificações por diversos povos desde a Idade Antiga, destacando-se a China, que a utilizou em extensos trechos da Muralha da China, e a cultura islâmica, inclusive em algumas fortificações na península Ibérica, em particular na região do Algarve, tendo sido os mouros os responsáveis pela sua introdução na península Ibérica. No Brasil, grande parte das igrejas e construções de dois ou mais pavimentos foram edificadas com a técnica de taipa-de-pilão. Durante o ciclo do ouro em cidades como Ouro Preto, Congonhas e Diamantina, a técnica teve seu período de excelência (PISANI, 2017).


No Nordeste brasileiro e nas Minas Gerais, por exemplo, durante o período colonial, a técnica mais usada para construções de edificações foi a TAIPA DE MÃO. Segundo FARIA (2002), essa técnica, também chamada de pau-a-pique, taipa de sopapo ou barro armado, é uma técnica em que as paredes tramadas de paus e varas verticais e horizontais, equidistantes, são alternadamente dispostos. Essa trama era fixada verticalmente na estrutura da construção e tinha seus vãos preenchidos com barro, atirado por duas pessoas simultaneamente uma de cada lado. A trama ainda poderia ser feita de madeira ou bambu e cipó ou outro material para amarrá-la. O barro e a água são amassados com os pés e, depois de amassados e misturados, são usados para tapar as paredes da construção.


No Estado do Maranhão, obviamente, muitas pessoas moram em casas de taipa. Como vimos acima, a técnica mais empregada pelos maranhenses para edificarem com madeira de barro, é a taipa de mão. Decerto, o Maranhão é um dos estados do Brasil onde as moradias de taipas são emblemáticas. Um expressivo número de maranhenses ainda habita nesse tipo de construção, sobretudo nas periferias das cidades e na zona rural (interior) do estado. É notório que as moradias de taipa refletem a pobreza ou a extrema pobreza da maioria da população. Muitos ainda habitam essas casas pela falta de condições financeiras para construírem de alvenaria.


No município de Arari, localizado ao norte do Maranhão, também se faz comum em alguns bairros periféricos da cidade e, sobretudo na zona rural, as habitações de taipa. A técnica usada no município, pelos moradores, é a técnica de taipa de mão. Geralmente, essas moradias são construídas pelos próprios moradores usando recursos na natureza como barro, caibros e enchimentos de madeira e palha de palmeira de babaçu, apesar de haver casas de taipa cobertas com telhas.


Voltando um pouco no tempo, agora de forma até nostálgica, faremos um breve relato contando, por experiência própria, a sensação de morar em uma casa-de-barro:


“Passei toda a minha infância morando em uma casa inicialmente feita de taipa e coberta de palha. Alguns anos depois, meu pai (in memoriam), trocou a cobertura da casa de palha para telha. Quando a casinha ainda era coberta de palha, o bom era a festa que fazíamos na “abertura” das pindovas e na cobertura da habitação. Muitos familiares e vizinhos se juntavam para ajudar no trabalho. No dia da coberta da casa, papai matava um porco para fazer a merenda dos trabalhadores, que era regada a cachaça e muita alegria. Confesso que não era muito confortável morar em uma casinha de taipa. Devido à intensa pobreza que vivíamos, não tínhamos recursos para melhorá-la. No entanto, era uma casa ampla e mantida sempre limpa e arejada. Durante o período de chuvas, as paredes de casa não suportavam a quantidade de água, encharcavam e o barro caia todo. Tornava-se comum ficarmos com as paredes esburacadas até o fim do período chuvoso. Mesmo com a proteção de palha que era colocada, denominada de maromba, as paredes não resistiam às fortes chuvas. Quando chegava o período seco, o primeiro serviço era ir às áreas de matas que circundavam o paupérrimo lugar, à época, para extrair madeira e palha para retocar as paredes. O barro para tapar era tirado do fundo do quintal. Ali mesmo era escavado e molhado, então, caíamos dentro para amassar a mistura com os pés. A criançada, principalmente, fazia uma verdadeira festa. Assim, a casa era “reformada” à espera da próxima invernada”.


É bem verdadeiro que o lar feito de barro, como se formasse uma caverna que brota do chão, resiste ao tempo, mantido mais pela condição de pobreza do que como alternativa arquitetônica. Outra verdade, é que o saber-fazer, que um dia foi transmitido para as várias gerações pela oralidade, está se perdendo com o passar dos anos. A falta de técnica está fazendo dessas construções a moradia temporária que ficou tão permanente quanto a condição de pobreza vivida pela maior parte do povo. O mais que se quer é mudá-la para uma casa de tijolo, sustentável e limpa. Para pessoas pobres que moram no mesmo chão de onde brota riqueza traduzida em frutas, é sinal de redenção e, principalmente, dignidade.


Na zona rural de Arari, é possível acompanharmos, cotidianamente, os processos de construção de uma moradia de barro. No povoado Paiol, localizado a leste do município, podemos ver famílias reunidas para construírem suas, digamos, rústicas residências. Todo o processo leva, em média, uma quinzena, dependendo da quantidade de pessoas envolvidas no trabalho. Após demarcarem o terreno, eles saem em busca da madeira e das palhas para edificarem a habitação. Esse saber fazer é naturalmente aprendido pelos mais novos. “Tudo depende das circunstâncias, meu caro” – disse-me um dos construtores, morador do Paiol.


Morar em casa de taipa não é nenhum demérito. Há as suas vantagens em habitar esse tipo de construção. O isolamento térmico, por exemplo, é ótimo, uma vez que as residências não esquentam muito, devido os materiais conduzirem pouco calor. O gasto financeiro é mínimo, haja vista que a maior parte dos materiais é coletado da natureza. E se for caprichosamente construída, pode ser, sim, aconchegante e salubre.



REFERÊNCIAS


FARIA, Obede B. A utilização de macrófitas aquáticas na produção de adobe: um

estudo de causa no reservatório de salto grande (Americana-SP), São Paulo. (Tese de doutorado), Escola de Engenharia de São Carlos – USP, 2002.


IMBROISI, Margaret. Construção de uma casa de taipa. Disponível em: https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/construcao-de-uma-casa-de-taipa/. Acesso em 11 de maio de 2020.


PISANI, Maria A. J. Taipas: A arquitetura de terra, Lisboa. (Terra em seminário 2007), ISNB 978-972-8479-49-7, 1ª edição, 2007.

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 2017. Adenildo Bezerra. Todos os direitos autorais reservados. 

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