AS TOCHAS VISTAS NOS CAMPOS ARARIENSES



O que não falta em Arari são histórias de “visagens”, que muitos juram já terem vistas em algum momento. Nas tertúlias nas esquinas ou nas calçadas, sobretudo ao fim da tarde, o assunto acerca de lugares assombrados é parte da conversa. O nosso saudoso geógrafo, José Soares, no seu prestimoso livro “Ressonância de ecos”, nas páginas 74, 75 e 76, traz uma história que muitas vezes ouvi: as tochas.

Sobre as tochas, por variadas vezes, ouvimos relatos de conhecidos ararienses que dizem já terem visto o assombroso fenômeno, nas noites escuras, nos campos que rodeiam Arari. Geralmente, quem relatam esse acontecimento são pescadores que saiam alta noite para pescar no igarapé do Nema ou no Lago da Morte. José Soares conta-nos dois episódios ocorridos, segundo ele, com pessoas conhecidas, que viram as tochas. Citarei um desses episódios narrados pelo nobre escritor arariense:

“[...] Certa noite um de meus cunhados foi à rua e voltou um tanto tarde – o que não era do seu costume, pois era ainda meninote e além disso, de pouca coragem, - coisa própria da idade transitória de menino a homem – e já encontrando a porta fechada, batera forte e intensamente. Despertei pelas batidas apressadas. Logo conheci sua voz a repetir: Sou eu! Sou eu! Abra depressa! Estou vendo a tocha!... Apressei-me a abrir. Foi então que me mostrou um foco de luz a cintilar sobre a copa de uma árvore, em direção à nossa rua. Constatando a veracidade do fenômeno e sua aflição, quis convencê-lo de que não se tratava de “visagem”, apesar de ser mesmo a tocha” [...]

Sobre o fenômeno das tochas, José Soares traz uma explicação para o mesmo. SOARES explica-nos que seria “um fenômeno químico que facilmente se explicava sua origem. Aquele fogo, nada mais era do que o efeito do calor da terra atuando sobre gorduras de ossos de animais que haviam morrido, cuja gordura aquecida durante o dia, pelo calor solar, iam-se transformando em gases, e à noite deixava-se escapar pelas fissuras do solo: inflamando-se espontaneamente, expandiam-se livremente no vazio atmosférico a movimentar-se pelo sabor da mais leve brisa, em consequência da ínfima densidade de seu expansivo volume de fogo extraordinário (fogo-fátuo)”.

Segundo DANTAS, fogo-fátuo é um fenômeno que ocorre sobre a superfície de lagos, pântanos ou até mesmo em cemitérios. Quando um corpo orgânico entra em decomposição, ocorre uma liberação de gás metano (CH4). Se em algum local houver condições de concentração do metano, o gás começará a concentrar, e se o clima estiver relativamente quente, ocorrerá uma explosão espontânea. Essa explosão resulta em uma chama azulada de 2 a 3 metros de altura com um barulho característico. Geralmente, quando uma pessoa se depara com o fogo-fátuo, se assusta e sai correndo, fazendo com que o ar se desloque, dando a impressão de que o fogo está a perseguindo. O fogo-fátuo pode ser um causador de incêndios nas matas. O fenômeno também pode ser facilmente confundido por pessoas místicas, como algo sobrenatural. A lenda do boitatá, por exemplo, foi baseada no fenômeno, onde os índios criam que o fogo da explosão era, na verdade, um monstro.

Fomos buscar uma explicação mais, digamos, científica sobre o fenômeno fogo-fátuo, a fim de ratificarmos a explicação do geógrafo arariense. Lendo a explicação do estudioso acerca do assunto, Tiago Dantas, corrobora-se com a afirmação de SOARES acerca do fenômeno das tochas. O fogo-fátuo, portanto, é mais comum do que se pensa. Bem, hoje, então, sabe-se da real causa do caso das tochas, todavia, essas histórias sobre a visão das tochas nos campos ararienses, sobretudo, fazem parte do nosso imaginário popular, fazem parte das nossas lendas.

REFERÊNCIAS

DANTAS, Tiago. "Fogo-fátuo". Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/fogofatuo.htm. Acesso em 02 de outubro de 2020.

SOARES, José. Ressonância de ecos. Arari, s/d, p. 74-76.

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